2 de julho de 2016

Sou como Edith Piaf, "Je ne regrette rien" (não lamento nada). Fiz o que quis e fiz com paixão. Se a paixão estava errada, paciência. Não tenho frustrações, porque vivi como em um espetáculo. Não fiquei vendo a vida passar, sempre acompanhei o desfile!!!!

18 de setembro de 2014

VOCÊ TEM UM VÍCIO?

Nunca dormi agarrada a travesseiros. Tenho uma amiga que precisa de um verdadeiro ”arsenal” para poder pegar no sono. São dois travesseiros na cabeça, um entre os braços, outro entre as pernas, e um logo abaixo dos pés. Eu, que gosto de ficar bem solta, nunca fui adepta dessa prática. Quer dizer, até agora. Mas, recentemente, de um-dois meses para cá, durmo todos os dias abraçada a um travesseiro. Só notava que o danado estava agarrado a mim ao acordar. Quer dizer, eu agarrada a ele. Sei lá! Vai saber quem agarra quem, não é? No começo, achei que era coisa boba, uma eventualidade que ia passar. Afinal, nunca precisei dormir agarrada a travesseiros. Só que não passou. Aliás, piorou! Agora, já me atraco ao senhor-fofo ainda acordada. Virou vício. Há pouco, entre um trabalho e outro, bem no intervalo para uma xícara de café acompanhada de apenas uma torradinha, fiquei pensando nos motivos para estas mudanças, variações, de comportamento. Como é que essas coisas acontecem? Por que a gente muda e nem percebe? Dá um certo medo porque, “donos da razão” que achamos ser, pensamos saber tudo sobre a gente. Mas, se isso é verdade, como é que não sei, por exemplo, de onde surgiu essa nova “necessidade”? Outro dia, discutindo com um conhecido, eu disse: “você quer saber mais de mim do que eu mesma?”. E ele respondeu: “Sim, mas é claro! Alguém de fora tem visão privilegiada e não sofre de miopia interna”. Pois bem, então deve ser isso. Estou míope. Liguei para minha amiga SUELI, que é psicóloga. Quem sabe ela não teria uma explicação melhor? Contei do causo-do-travesseiro e ela disse que, muito provavelmente, estou brincando de corte-costura. What? É mais ou menos assim: sabe quando a costureira prega um pedaço de pano para cobrir um furo ou rasgo? Pois é. Foi isso que ela quis dizer. Estou “remendando” alguma coisa. O travesseiro teria o mesmo efeito que tem outros tipos de “drogas”. Preenchem uma necessidade. Tá, entendi. Mas, vício em dormir com travesseiros pra mim é novidade. Coisa estranha essa história de vício, né? Fiquei pensando nos meus. São tantos! Escrever no blog vicia. Comer chocolate vicia. Falar bobagem vicia. Ler vicia. Fazer sexo vicia. Ouvir música vicia. Beber vicia. Fumar vicia. Dormir agarrada em travesseiros? Não, não vicia (ou será que vicia?). Tentei mais explicações, mas, ela me despachou porque estava atendendo uma paciente um pouquinho mais grave que eu e meu ”vício” de dormir com travesseiros (coisa pequena, só uma tentativa de suicídio). A única certeza que cheguei foi que, com ou sem travesseiro, sou inteirinha remendada! Um verdadeiro vestido de chita, cheia de vícios-remendos. E você? Anda se remendando com algum vício também? Qual é o seu vício?

VOCÊ TEM UM VÍCIO?

Nunca dormi agarrada a travesseiros. Tenho uma amiga que precisa de um verdadeiro ”arsenal” para poder pegar no sono. São dois travesseiros na cabeça, um entre os braços, outro entre as pernas, e um logo abaixo dos pés. Eu, que gosto de ficar bem solta, nunca fui adepta dessa prática. Quer dizer, até agora. Mas, recentemente, de um-dois meses para cá, durmo todos os dias abraçada a um travesseiro. Só notava que o danado estava agarrado a mim ao acordar. Quer dizer, eu agarrada a ele. Sei lá! Vai saber quem agarra quem, não é? No começo, achei que era coisa boba, uma eventualidade que ia passar. Afinal, nunca precisei dormir agarrada a travesseiros. Só que não passou. Aliás, piorou! Agora, já me atraco ao senhor-fofo ainda acordada. Virou vício. Há pouco, entre um trabalho e outro, bem no intervalo para uma xícara de café acompanhada de apenas uma torradinha, fiquei pensando nos motivos para estas mudanças, variações, de comportamento. Como é que essas coisas acontecem? Por que a gente muda e nem percebe? Dá um certo medo porque, “donos da razão” que achamos ser, pensamos saber tudo sobre a gente. Mas, se isso é verdade, como é que não sei, por exemplo, de onde surgiu essa nova “necessidade”? Outro dia, discutindo com um conhecido, eu disse: “você quer saber mais de mim do que eu mesma?”. E ele respondeu: “Sim, mas é claro! Alguém de fora tem visão privilegiada e não sofre de miopia interna”. Pois bem, então deve ser isso. Estou míope. Liguei para minha amiga SUELI, que é psicóloga. Quem sabe ela não teria uma explicação melhor? Contei do causo-do-travesseiro e ela disse que, muito provavelmente, estou brincando de corte-costura. What? É mais ou menos assim: sabe quando a costureira prega um pedaço de pano para cobrir um furo ou rasgo? Pois é. Foi isso que ela quis dizer. Estou “remendando” alguma coisa. O travesseiro teria o mesmo efeito que tem outros tipos de “drogas”. Preenchem uma necessidade. Tá, entendi. Mas, vício em dormir com travesseiros pra mim é novidade. Coisa estranha essa história de vício, né? Fiquei pensando nos meus. São tantos! Escrever no blog vicia. Comer chocolate vicia. Falar bobagem vicia. Ler vicia. Fazer sexo vicia. Ouvir música vicia. Beber vicia. Fumar vicia. Dormir agarrada em travesseiros? Não, não vicia (ou será que vicia?). Tentei mais explicações, mas, ela me despachou porque estava atendendo uma paciente um pouquinho mais grave que eu e meu ”vício” de dormir com travesseiros (coisa pequena, só uma tentativa de suicídio). A única certeza que cheguei foi que, com ou sem travesseiro, sou inteirinha remendada! Um verdadeiro vestido de chita, cheia de vícios-remendos. E você? Anda se remendando com algum vício também? Qual é o seu vício?
Guarde essas pedras que você insiste em jogar em mim para alguém que não tenha uma muralha inteira para se defender, ok?

9 de junho de 2013

O AMOR COMEU...

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte. . “Os Três Mal-Amados”, do livro “João Cabral de Melo Neto - Obras Completas”, Ed. Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

26 de maio de 2013

Em certas alturas a loucura é a cura. Em certos momentos o alento é lento.

19 de maio de 2013

E AÍ ?

Sinto agora, de maneira plena, algo que costumo negar : a solidão. Aquela que pode nutrir, ou que pode cortar. Mas que vale a pena. Vale como a própria vida, que nem sempre tem que ser sorvida a dois. Sinto o distanciamento, e todas as coisas que ficaram pendentes. E a verdade é que não me importo mais.

PEQUENA MUTAÇÃO

Minha Realidade é feita de muitas coisas: um trabalho massacrante e desafiador. Meio que "Bombeiro" (...) vou apagando incendios, quase que reais. Ás vezes eu me sinto Feliz. Uma felicidade que vem do Silêncio...dos olhares e gestos cotidianos. Ás vezes percebo que estou no meio de minha felicidade: Um homem existiu em minha vida. Eu experimentava outro ser humano. Ele me experimentava.Uma curta história de amor, que se parece com tantas outras. Durou alguns anos. SÓ POSSO FALAR DA TRISTEZA E DA FALTA QUE ELE ME FAZ. Me sinto profundamente só... Penso que a minha alma não tema a menor chance de salvação... E eu me obrigo a rir aos prantos. Durou vários anos. Depois de viver com ele durante alguns anos, comecei a observa-lo.Ficava em silencio e, sentada, observava. Ele não existia apenas em relação a mim.Quanto mais ele se afastava, mais eu o entendia.Como se a distancia me desse maior lucidez. Meu medo diminuiu e a solidão mais fácil de suportar , quando eu via a insegurança dele. A adoração desapareceu. Notei seu cabelo grisalho;ele era muito mais velho, era sábio e estimulante: vaidoso e egoista. E descobri, com surpresa, que isso era amor. Com tristeza percebi que tudo logo terminaria... E quando terminou, tive a esperança de que ele não ficasse sozinho. Que uma nova mulher tomasse conta dele melhor do que eu. Algo tinha se esmagado dentro de mim. Estou passando por uma MUTAÇÃO. Vi o interior de uma pessoa, e estou cheia de ternura pelo que descobri. Durante um período pegamos nas mãos um do outro e permanecemos dolorosamente unidos. Quando a tempestade passar...seremos verdadeiramente amigos. texto de elza rocha .

14 de maio de 2013

É você quem brinca comigo ou sou eu que me deixo brincar?

5 de maio de 2013

LYA LUFT

Bem que eu queria dormir, mas a culpa chamou-me a noite inteira. Eu preferia fugir, mas a morte arranhava a minha porta. Devia esquecer o amor, mas esse não desiste de mim: me agarra, me devora e me vomita no alto da sacada. (Cada vez que acordo, perdi um novo pedaço: ouço os cacos rolando o tempo todo na escada.) - Lya Luft 4

1 de maio de 2013

SOBRE O SUICÍDIO

“Há pessoas que só não se matam por medo do que os vizinhos irão pensar.”- Cyril Connoly “Suicídio é uma solução permanente para um problema temporário.” - Phil Donahue " A coisa mais autêntica sobre nós é nossa capacidade de criar, de superar, de suportar, de transformar, de amar e de ser maiores do que o nosso sofrimento. " - Ben Okri “A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.” - Friedrich Wilhelm Nietzsche “Suícidio alguns à vista outros a prazo” - Revel Knale “Não é que o suicídio seja sempre uma loucura. (…) Mas, em geral, não é num acesso de razão que nos matamos.” - Voltaire “O ódio é uma forma prolongada de suicídio.” - Johann Von Schiller “A dificuldade de praticar o suicídio está nisto: é um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda a espécie de ambição.” - Cesare Pavese “O ceticismo é um suicídio lento.” - Ralph Waldo Emerson “O suicídio é a forma mais sincera de auto-crítica.” - Oscar Wilde “Suicídio é, freqüentemente, apenas um grito por ajuda que não foi ouvido a tempo.” - Graham Greene “Viver de acordo com as expectativas dos outros é suicídio.” - Roberto Shinyashiki “A resignação é um suicídio cotidiano.” - Honoré de Balzac “Suicídio é a pior forma de assassinato porque ele não deixa nenhuma oportunidade para arrependimento.” - John Churton Collins “Não sei se a vida me faz mal ou se hei-de procurar a morte para me curar!”- Abilio Manuel Ferreira “O suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer.” - Georges Perros “O suicídio demonstra que na vida existem males maiores do que a morte.” - Francesco Orestano

PENSANDO NA VELHICE

Já vi mil listas que mostram as evidências de que estamos ficando velhos. Resolvi também fazer a minha listinha : - A gente deixa de ser criança quando a chuva deixa de ser convite para para a rua e passa a ser convite para ficar debaixo da coberta. - A gente está ficando velho quando não tem mais grandes expectativas para "a festa do ano". Aproxima-se uma festa e só o que a gente pensa é: já vi esse filme. E já vimos mesmo. - Quando não vale mais a pena sacrificar o presente em prol de um futuro promissor. - Quando a gente começa a achar que homem é igual a criança: uma maravilha, mas cansa pra caramba. - Quando o termo "novo amor" provoca um "Deus-me-livre" ao invés de um "queira Deus!" - Quando definitivamente deixamos de acreditar nas promessas dos vendedores. - Quando não temos mais paciência para fingir que acreditamos nos homens. Aliás, quando não temos mais energia para fingir NADA para agradar ninguém. - Quando somos verdadeiros ao dizer que não estamos mais nem aí para as nossas gordurinhas. Antes era só bravata. - Quando é verdade que não estamos nem aí se não tivermos um companheiro. Antes também era só bravata. - Essa frase não é minha, mas merece estar aqui: "Estamos ficando velhas quando nos divertimos mais ao lado de um homem do que debaixo dele." - Quando alguém diz que vai lhe dar uma jóia ou uma roupa muito bonita e cara e você responde: "ah, pra quê?!" - Quando um homem lhe dá uma cantada e entre tantas possíveis respostas positivas ou negativas você apenas diz: "cara, não me encha o saco!" - Quando, vemos um acrobata ou adepto de esportes radicais e ao invés de lhe admirar a arte, só conseguimos pensar em como o ficaríamos moídos se tentássemos fazer a mesma coisa. E por aí vai. A coisa não pára não!

28 de abril de 2013

GENTE CHIQUE...

GENTE CHIQUE Se existe uma coisa que admiro e tento (inutilmente) imitar é: gente chique. Gente chique não manda ninguém tomar nos orifícios - que é uma coisa muito rude e primitiva. Gente chique fica na sua, como se estivesse em um trono sob câmeras e holofotes. Só que algumas vezes a pressão é tão grande e o aborrecimento tão avassalador, que é lógico: temos que extravasar nossa contrariedade e colocar ordem no barraco recinto. É aí que entra a simpática figura do coquinho rolando pelo gramado do palácio, seguida de um bobão correndo atrás, mostrando os fundilhos encardidos e sendo caçoado pela criadagem. Eu explico: "Vá catar coquinho" é a maneira mais simpática que conheço de chutar o balde sem perder a compostura. A expressão tem a dose certa de humor que desarma o ser xingado. Desarma porque a intenção era aborrecer, mas você está se divertindo com ele, que se pretende grave. Se ele queria te tirar do sério e você retruca com algo rápido, leve e desinteressado: - "Você é tão reles mas tão reles que não inspira ofensas muito sérias ou aviltantes. Sua figura está mais para bobo da corte do que vilão palaciano. Então vá catar coquinho!" - "Se eu apreciasse amenidades, riria da sua figura. Mas como você não chega a tanto, só me resta expressar meu apreço pela sua ausência. Por favor, vá catar coquinho no despenhadeiro lá da esquina." - "Uma morte sangrenta é romântica demais para direcioná-la a você. Sua figura não cabe em dramas, mas em comédias. Não dá nem para eu me aborrecer a contento. Vá catar coquinho." Quando você ordena que alguém cate cocos pequenininhos, acredite: você imediatamente ganha estatura. É imediatamente catapultado do chão à nuvem mais próxima. Você de um lado, os coquinhos do outro: quem tem aspecto mais imponente? Você! E a imagem do seu oponente retirando-se envergonhado, confuso, com o rabo entre as pernas e uma cesta na mão indo atrás coquinhos... Não é delicioso? (CRISTINA FARAON)

26 de abril de 2013

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte. . “Os Três Mal-Amados”, do livro “João Cabral de Melo Neto - Obras Completas”, Ed. Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

incompletudes .... senhorita ká

Às vezes acordava de noite e via as estrelas avançarem tão convincentes que não podia entender que alguém fosse capaz de desperdiçar tanto mundo (Rilke) Quase três da manhã e eu aqui pensando no quanto tenho preguiça de gente com pouca coragem. Não tenho nada contra os cautelosos demais, não. É só preguiça mesmo. Da pessoa não tentar (quando quer), não se arriscar, não conseguir se livrar das culpas e ficar sempre naquele minúsculo ”mundinho do politicamente correto“. Tipo: eu até tento entender porque também tenho medo dos riscos. Já dizia minha avó que medo é sinal de inteligência, de faro, de instinto, de saber identificar os perigos. Mas, usar essa cautela toda como uma desculpa para tudo, para não viver, me dá uma preguiça danada. Prefiro mil vezes ter um problema novo por dia, a ter de reviver o mesmo problema todos os dias. É só uma questão de atitude, sabe? E, pra ter atitude, não precisa necessariamente ser “maluco beleza”,“porra louca”, ou coisa do gênero. Mas é preciso sair do script um pouco. Ser inconveniente de vez em quando. Rir na cara de alguém. Falar alguma bobagem. Instigar. Provocar. Irritar – quando necessário. Ser bobo, hora e outra, e tirar um barato da própria cara. São essas coisas que me devolvem o ar em meio ao sufoco da vida. . Se você for tentar, vá até o fim. Senão, nem comece. Se você for tentar, vá até o fim. Isso pode significar perder namoradas, esposas, parentes, empregos e talvez sua cabeça. Vá até o fim. Isso pode significar não comer por 3 ou 4 dias. Pode ser congelar em um banco de praça. pode ser cadeia, pode ser o ridículo, chacota, isolamento. Isolamento é a dádiva. Todo o resto é um teste de sua resistência do quanto você realmente quer fazer isso. E você vai fazer Independente da rejeição e das piores dificuldades será melhor do que qualquer outra coisa que você possa imaginar. Se você for tentar, vá até o fim. Não há outro sentimento como esse. você estará sozinho com os deuses e as noites se inflamarão em chamas. Faça, faça, faça. Até o fim. Você guiará sua vida direto para o riso perfeito, essa é a única boa briga que existe. * Porque, às vezes, é preciso dizer - sem blefar – qual é o jogo. Jogue os dados, baby…

9 de abril de 2013

senhorita ká

Eu devo. Pro cartão de crédito, é claro. Antes fosse só para ele. Devo também visita aos amigos, respostas aos comentários do bloguito, sem contar os emails acumulados de pessoas queridas e amadas , mais sexo pro namorado, e presença em festa de aniversário – da minha irmã (sim, eu faltei). Acho que nunca estive tão em débito com tudo. Uma mistura de excesso de coisas pra fazer e o fato de ser centralizadora. Não sei, também, fazer as coisas pela metade. Então, o dia nunca é suficiente.poxa. E, ainda tem tanta coisa pra fazer que estou com vontade de “jogar a toalha” e fugir – o que não seria má ideia embora não resolva nada. Daí você me pergunta: “mas, que hora você acordou?”. E eu respondo: “Nem fui dormir ainda“. Como me sinto? Sem dúvida, uma bitch sem consideração e sempre em dívida. But, no entanto, tranquila. Fazendo as coisas dentro do tempo que me é possível . Fico invejando e me perguntando como as pessoas arrumam tempo. … e durante a madrugada ainda tive que matar uma barata na sala. ow god! it’s my life. Mas, como disse o Dom Quixote, não é dado aos cavaleiros andantes (e, às “amazonas” em dívida com o mundo) queixar-se. Por isso, às vezes, sumo. Porque reclamar de tudo é para os “fracos” (ow, ow… eu não sou forte, mas, não curto “muro das lamentações”). Então volto (pro azar de vocês!). E, à propósito, sim, eu tenho medo de baratas. Devendo muito por aí também? Sobreviveremos?

2 de abril de 2013

É UMA MERDA

- -É uma merda pensar que a minha felicidade está nas mãos de outra pessoa, que eu necessito dessa outra pessoa para me sentir feliz e completo. Mas assim é. Viemos ao mundo com um vazio afetivo e passamos a vida tentando preencher esse vazio. Somos – alguns mais, outros menos – maníaco-dependentes da atenção alheia, do carinho alheio, do olhar alheio, das migalhas alheias. Ei, por que você não me ligou ontem? Seria bom – ah, seria! – se a gente conseguisse ser feliz sozinho. Aí, eu não precisaria apontar uma arma pra você, não precisaria exigir porra nenhuma de você. E não estaria aqui, com o coração apertado, esperando você lembrar de mim. No filme The Doors (1990), de Oliver Stone, um enlouquecido Jim Morrisson pergunta para Pamela Courson: "Você morreria por mim?". Acho que é o que todos desejamos: que alguém declare que morreria por nós. Eu, para não ter que morrer por ninguém, só queria ser feliz por minha própria conta e risco.

DO EGOISMO..... SENHORITA KÁ.....

Sou egoísta com meu sofrimento. Não o divido com ninguém. Porque não gosto, não quero. Porque acho que se dividir, sofrerei menos. E não quero sofrer menos quando a dor que dói é importante para mim. Quero sofrer à medida que a coisa sofrida merecia. Tem que doer o suficiente para que àquela dor se torne inesquecível. Para que eu nunca mais me esqueça que há dores tão fortes assim. Há quem fuja da dor. Não sei fazer isso. Assim como na felicidade, no amor, mergulho inteira. E o problema não é a dor. É como se sofre. Tenho certo talento à autodestruição. Com a maturidade tenho aprendido a destruir-me menos. Hoje, nada mais de bebidas, psicotrópicos em excesso, sexo ocasional para aliviar a dor. Ainda resta o silêncio extremo. O esvaziamento que se instala e toma conta de tudo. A falta de vontade de comer, dormir, escrever, ler, estudar, ver, sentir. Aquele sentimento de “tanto faz”. Não sou uma pessoa de tanto faz. O tanto faz me mata. Mas, como diz a imagem acima, mesmo que eu não consiga dormir agora, tenho certeza que ainda sou capaz de sonhar. E é exatamente isso que, neste meu silêncio reparador, tento trazer de volta. É assim que lido com a minha dor. E você, como lida com a sua?

27 de março de 2013

MÁRIO QUINTANA

“A vida fica muito mais fácil se a gente sabe onde estão os beijos de que precisamos” – Mário Quintana