Perder doi mesmo. Não acredito em poses e posturas. Acredito em afetos. A dor incomoda. Agora sei que não preciso realizar nada espetacular.O essencial é que estou vivendo sem imposições:que a vida seja desdobramento e abertura. A vida vivida com gosto e dor. Em sua plenitude. Sem algemas...
7 de novembro de 2009
Á SÂNIA (CARTA Á UMA AMIGA)
Querida, hoje me lembrei de você.
Caso totalmente acidental. Desses que não têm a menor importância, mas, que varrem nossa vida com o passado. Sabe, faz tempo, muito, que não nos falamos e, entretanto, continuo a mesma. Você garantiu que mudaríamos se nos afastássemos. Não mudei. Você mudou? Hoje, bom, hoje, não tive tempo para nada. E, há pouco, a fome bateu em minha porta. Havia na geladeira uma garrafa de vinho e no freezer peito de frango congelado. Nem um, nem outro. Liguei para a padaria e pedi pão, salaminho italiano e cerveja. É, sei… não precisa dizer, não é uma escolha saudável. Dane-se. Não quero viver muito. Pra quê?
Quando o interfone tocou, e o porteiro avisou, desci. Peguei a sacola do entregador que disse: “dona, só tinha a Malzbier”. Malzbier???… Malzbier!!!!… palavra ingrata, culpada. Ela que te trouxe para a minha noite. Foi um pensamento desses “teia de aranha”, sabe? Um puxa o outro e outro e outro. E cá estou falando com você. E quase te ouvindo dizer: “aprenda: é Malzbier! Malzbier! nada de cerveja preta! pare com isso! fale corretamente”. Aprendi. Agora já sei que essa cerveja escurinha e docinha, a única que gosto, se chama Malzbier. Você teria orgulho de me ouvir pedindo ao padeiro… “Malzbier, por favor”.
Sânia, eu não queria te trazer ao presente não. Você tem lugar de honra em meu passado. Mas, essas coisas a gente não controla. Depois que dei a gorjeta ao garoto, notei em meus braços o embalo daquelas garrafas. E pelo espelho do elevador me dei conta que não tomava cerveja, assim, sozinha “desde a gente”. É. desde a gente, minha querida. Você sabe que “sou do vinho”. Faz tempo. Quase pude me lembrar de você estirada no tapete branco e fofo da sala junto com o gato (como se chamava?), que me dava uma alergia danada (ainda não sei se o gato ou o tapete), pedindo “a sua cerveja”. Você era folgada. É verdade! Nem adianta contrariar. F-O-L-G-A-D-A!
Você sempre gostou de cerveja, não? Que horror, SÂNIA! Cerveja à vinho? Não brinque! Quando não tínhamos um tostão no bolso, até entendo… mas, depois? ah, não…minha querida! Vinho, por favor… Se lembra quando saíamos fugidas das aulas? E só tínhamos o dinheiro para o ônibus? Quantas caronas fomos obrigadas a pegar!? Mas, bebíamos! Estiradas na grama do lindo jardim da faculdade… estragando o paisagismo da noite… com folhas coroando nossos cabelos sujos. É, não éramos uma bela paisagem vistas desse ângulo. Bêbadas, sujas e tremendamente palhaças. Por que ríamos tanto, Sânia? Até hoje não entendo… Mas, havia graça ali… se havia!
Também você foi minha melhor amiga. Se não rirmos junto a ( e para os) amigos com quem será? E nós rimos muito. De tudo. De todos. Mas, hoje, Sânia, comendo esse pão com salame e tomando essa cerveja, lembrei de nós. De um dia em especial. Saímos da aula do professor de História Antiga. Se lembra? Aquele mesmo que adorava nos agarrar no laboratório escuro… Uma vez você deu um kung-fu direto no estômago dele porque tocou seus seios. Lembra? Mas, depois, mais tarde, estirada comigo na grama você confessou que gostou. Como Sânia? Como pode ter gostado? Ai, que raiva de você! Que pouca noção de “qualidade” … para bebidas e para gente. Até brigamos… Você chorou. Resmungou e encostou a cabeça no meu ombro, como fizemos tantas vezes.
. Estirada, ali, na grama. Te embalei como fiz com as garrafas hoje no elevador. assim, . E você olhou para cima e quis me mostrar as estrelas.
SÂNIA, preste atenção: agora a Malzbier acabou mas as lembranças não. Essa história está ficando longa e amorosa demais, como a nossa foi. É que hoje, só hoje, me lembrei de você. Não costumo me lembrar mais de você. É como estrela brilhante e morta. Renasça. Terra brasilis te espera, de novo, um dia. Recebi as fotos do “pequeno”. Lindo. Não esqueça de apresentá-lo à sua melhor amiga, desde muito, muito tempo… Vou mandar fotos novas. Trate de imprimir e colar no berço do danadinho! Aí de você se, no futuro, ele não me reconhecer! Mande beijos sortidos para o “nosso” marido”. Diga que ele me deve. Me deve você. Essa é uma dívida imensa ,Sânia. Acho que ele não conseguirá pagar nunca. Mas, por você, minha querida, essa é dívida perdoada. Agora eu estou feliz e um pouco bêbada. E você, como estará neste exato momento?
Saudades de bolinho de chuva, de cafezinho com papo, de choros minguados e colos, muitos.
Amor sempre, da sua amiga e companheira de vida.
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elzinha
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